O entardecer deixa ainda mais vermelha a terra em uma área de renovação de canavial na região de Potirendaba, interior de São Paulo. Máquinas e homens trabalham em ritmo constante.

Enquanto isso, na base, (espaço que serve de refeitório e local de descanso para os trabalhadores) Adão José Borges se prepara para voltar ao trabalho. “Seu Adão”, como é conhecido por todos, é um dos operadores de tratores plantadeiras. Emocionado, o trabalhador lembra do início de sua jornada no setor, quando a maior parte do plantio da cana-de-açúcar ainda era feito de forma manual.

“Comecei na plantadeira manual. Tive a oportunidade de operar um trator pequeno. Já estava bom. Depois tive a oportunidade de ir para um trator ainda maior e foi mais alegria ainda”, conta Adão, que não consegue conter a emoção ao relembrar o passado. Com os olhos marejados, comemora as conquistas dos últimos dez anos e planeja: “já consegui comprar meu carro, agora a minha casa vem aí. Ano que vem vou realizar mais esse sonho”.

O operador de plantadeira da COFCO Adão José Borges é só um exemplo da transformação que vários profissionais passaram com o processo de mecanização das lavouras de cana-de-açúcar, no estado de São Paulo.

Em 2007, com a assinatura do protocolo agroambiental Etanol Verde, o setor sucroenergético parou de realizar a queima nos canaviais e adotou o uso de colhedoras mecanizadas. Assim, foi desenvolvido um dos maiores processos de requalificação profissional já realizados no Brasil. Mais de 400 mil trabalhadores foram preparados para assumir novas funções. Aposentaram os equipamentos usados no corte manual e passaram a operar máquinas altamente tecnológicas.

“Foi um processo de requalificação muito grande. Em muitas usinas, nós nos deparamos com pessoas que tinham muito pouco conhecimento, com nível básico de alfabetização e que deixavam de ser operadores de algumas máquinas até mais simples, para começar a trabalhar com máquinas que tinham computadores de bordo, pilotos automáticos, um sistema de GPS para guiá-los. E o desafio foi fazer com que isso fosse familiar para eles no dia a dia”, explica o gerente de planejamento da Raízen, Jefferson de Mello.

Jefferson também foi um dos profissionais que tiveram um impulso profissional com a transformação no processo produtivo. Aos 16 anos, foi contratado para trabalhar em uma área experimental. Passou pelo corte manual, laboratórios e ajudou no aprimoramento dos pilotos automáticos usados nas colhedoras para a realidade do campo brasileiro.

“São 21 anos no setor. Desde a minha formação na faculdade. As diversas especializações que fiz em tecnologia sempre tiveram foco em achar soluções para a cana. Isso me propiciou desafios pessoais muito positivos. Para quem começou trabalhando na lavoura, em uma operação totalmente manual, chegar onde estou hoje nessa organização, é um privilégio”, orgulha-se.

Um novo futuro

Os treinamentos e o incentivo profissional propagados pelo setor possibilitaram que vários trabalhadores pudessem entrar para universidades e, com a qualificação, ocupar novas funções nas usinas.

“É muito gratificante ver que antes pessoas que só sabiam cortar cana, hoje estão fazendo faculdade, ficamos felizes em saber que estamos contribuindo para além do crescimento da empresa, mas para o crescimento da região e do Brasil. Foi um diferencial de vida para as pessoas”, destaca o diretor de recursos humanos da Tereos, Carlos Leston Belmar.

Erivelton Spíndola , líder de colheita e plantio na Usina Vertente

Essa possibilidade de crescimento alimenta muitos sonhos no atual líder de colheita e plantio na Usina Vertente, Erivelton Spínola. “Como tem oportunidade, eu me vejo como um futuro gestor. Estou fazendo faculdade e com empenho espero chegar a essa função”, ressalta.

Há 10 anos no setor, Spíndola não esquece a alegria que sentiu quando pôde operar sozinho, pela primeira vez, uma colhedora. “Eu senti prazer por ter conseguido chegar onde eu almejava, que era trabalhar com colhedora. Depois novas oportunidades foram se abrindo e hoje eu estou como líder”, informa.

O desafio do pioneirismo

Os primeiros experimentos de colheita mecanizada no Brasil começaram nos anos 1970, mas só se expandiram a partir de 2007. Como não havia tecnologia nacional, as usinas precisaram encontrar soluções para a dinâmica dos canaviais brasileiros. “O pioneirismo tem um preço muito caro, você corre muitos riscos durante muito tempo e é até malvisto por aqueles que não querem adotar as novas práticas”, revela o diretor agrícola e de tecnologia da São Martinho, Mário Ortiz Gandini.

Mário coordenou os primeiros processos de mecanização no Brasil. Assim, pôde acompanhar de perto a transformação que isso proporcionou aos trabalhadores do campo. “Essa é minha maior gratificação profissional. Sou agrônomo, mas é na área de humanas que tenho minha maior gratificação. Vi todos os meus colegas de trabalho tendo uma mudança muito grande na condição de vida. E esse crescimento não fica só na empresa, acaba indo para as famílias e as comunidades”, diz.