O uso da palha da cana-de-açúcar na geração de energia elétrica, ao lado do bagaço e do biogás da vinhaça, tem o potencial de incrementar em até 70% a eletricidade produzida pelo setor. A estimativa do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) é de que o excedente tem potencial para passar dos atuais 21,5 TWh exportados para a rede em 2018 para 100 TWh, considerando o aproveitamento de 50% da palha disponível atualmente no campo. Com esse potencial em mente, o Projeto SUCRE desenvolveu um projeto de pesquisa que vem explorando o tema há quatro anos, com financiamento do Fundo Global pelo Meio Ambiente (Global Environment Facility – GEF), gerenciado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O estudo sobre Processamento e Queima de Palha nas Usinas para Geração de Eletricidade foi estruturado para analisar diferentes problemáticas, incluindo a quantidade de palha que pode ser removida do campo e as melhores formas de fazê-lo; os impactos dessa matéria prima nos processos e equipamentos industriais; o reflexo da remoção da palha do campo tanto nos recursos hídricos quanto na emissão de gases de efeito estufa. “A palha é um componente da cana que não pode ser desprezado. Representa 1/3 da energia primária. Atualmente, ao produzir álcool, açúcar e eletricidade, considerando o valor energético, se está usando cerca de 40% dessa energia. E a razão principal é o não uso da palha”, esclarece Regis Lima Verde Leal, diretor nacional do Projeto SUCRE.

Participaram do estudo quatro usinas que já estão usando a matéria-prima para geração de energia elétrica e oito que estavam interessadas ou em fase inicial. As informações geradas pelo projeto estarão disponíveis gratuitamente ao público em relatórios temáticos, que incluem, por exemplo, detalhes de procedimentos para análise de campo e de laboratório. Também serão realizados workshops, o primeiro deles agendado para 25 de outubro.

“Fizemos experimentos em 24 localidades diferentes para ter uma amostragem grande da combinação clima-solo. O produto final disso será um guia de boas práticas. A usina poderá, a partir de suas particularidades, fazer um mapa de recolhimento de palha em cada safra, incluindo variáveis como declividade, qualidade do solo, produtividade, clima etc.”, explica Leal. O pesquisador antecipa que será possível saber de antemão o volume de palha disponível na safra.

Recolhimento
O projeto também trará um mapa de vantagens, desvantagens e impactos econômicos de duas rotas de recolhimento da palha. A primeira se daria por enfardamento no campo. “Quando se joga a palha no chão, você tem que esperar secar e tem um tráfego de máquinas adicional, enfardadora, enleiradora, transbordos. Isso vai pisoteando a cana e compactando o solo. A vantagem desse método é que você tem uma forma mais densa de levar a palha, diminuindo os custos de transporte”, relata Leal.

A segunda forma de recolhimento estudada é por meio da redução da velocidade dos ventiladores de limpeza na colhedora. “Quando você tem mais palha do que o normal na colheita, a densidade da carga diminui, então é preciso fazer mais viagens do campo à indústria. Tem também um investimento no sistema de limpeza a seco e no custo da energia, que não é desprezível. Isso tudo está mapeado e quantificado no estudo”, explica.

Processo industrial
Ao longo da pesquisa foi descoberto um ponto novo de atenção que são as sustâncias constituintes da palha que podem afetar os equipamentos industriais. “A palha tem teores maiores de potássio, cloro e enxofre. Apesar de ser uma concentração muito baixa, esses elementos, principalmente o potássio na presença do cloro, formam compostos que tem um ponto de fusão mais baixo do que as cinzas e se depositam no fundo da caldeira, causando corrosão e perda de eficiência na transferência de calor”, explica. O pesquisador afirma que estão sendo desenvolvidos processos para retirar esses elementos por lavagem de forma a deixar a composição da palha mais parecida com a do bagaço.

Marco regulatório

Outro capítulo importante do estudo é sobre o marco regulatório do setor elétrico brasileiro, com coordenação do Zilmar de Souza, gerente de bioeletricidade da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), tema crucial para criar um ambiente de maior previsibilidade institucional e financeira que incentivaria investimentos na ampliação da geração. Nesta parte da pesquisa, o trabalho trata das barreiras regulatórias que dificultam a comercialização de bioeletricidade por usinas sucroenergéticas, sobretudo quando se envolve o aproveitamento da palha de cana-de-açúcar.

“Atualmente, o setor elétrico está discutindo várias propostas que pretendem modernizá-lo institucionalmente, e o Projeto SUCRE pode ajudar na tarefa de apresentar, de forma organizada, os principais desafios que tanto o setor elétrico como o sucroenergético têm para estimular o aproveitamento do potencial da bioeletricidade, uma energia renovável, sustentável, não intermitente e efetivamente complementar à geração das hidrelétricas”, avalia Souza.

Em 2018, segundo a UNICA, a bioeletricidade ofertada para a rede, pelo setor sucroenergético, foi equivalente a ter evitado a emissão de 6,4 milhões de tCO2, marca que equivale ao cultivo de 45 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos. Além disto, o montante equipara-se a ter poupado 15% da energia total armazenada nos reservatórios das hidrelétricas do submercado SE/CO, por conta da maior previsibilidade e disponibilidade da bioeletricidade no período seco.

Evento temático

O tema do uso da palha também será exposto durante o encontro “Cenários do Setor Elétrico Brasileiro”, no dia 17 de outubro, no Auditório ABINEE II (Av. Paulista 1.439, 6º andar – São Paulo). A iniciativa é da UNICA, com o apoio da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (COGEN), da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE), da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABIOGÁS), e da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (ABRACEEL). Os interessados em participar do evento devem confirmar presença até 14/10/2019 enviando e-mail para: zilmar@unica.com.br. Vagas limitadas.