Palavra da Presidência

Elizabeth Farina

Elizabeth Farina

O Acordo de Paris e necessidade de um plano estratégico 29/05/2017

* Com a colaboração de Luciano Rodrigues, gerente de Economia e Análise Setorial da UNICA.

O pacto histórico assinado por 197 países na 21ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (COP-21) estabeleceu um novo marco no enorme desafio de manter o  aumento  da  temperatura  global  abaixo  de  2ºC  e  combater os  efeitos  nefastos  do aquecimento global.

A  despeito  do  ceticismo  do  atual  presidente  americano  ante  as  evidências  empíricas e estudos  contundentes  sobre  o  tema, é  inegável  que  o  comportamento  mundial  mudou profundamente  e  a  busca  pelo  uso consciente  de  energia  limpa  e  renovável  retrata  um movimento sem volta.

A necessidade de transformações para a preservação e uso racional dos recursos naturais passou   a   permear   todas   as   discussões   sobre   segurança   energética.   Existe   um entendimento  coletivo  de  que  não é  possível  manter  o  padrão  de  vida  atual  sem comprometer o futuro das próximas gerações.

Nessa linha, apesar das políticas erráticas dos últimos 15 a nos, o caso brasileiro ainda é considerado  um  exemplo  de  sucesso.  Isso  porque  as  fontes renováveis  respondem  por expressivos 39% da matriz energética nacional. Os
produtos  da  cana-de-açúcar,  por  sua  vez,  se  destacam  ao  representarem  cerca  de 16% da matriz ou 40% de toda a energia renovável ofertada internamente. Tais cifras são  obtidas  utilizando  apenas  0,6%  do  território  nacional  para o  cultivo  da  lavoura canavieira destinada ao uso energético.

Esse  destaque  da  bioenergia  é  reconhecido  no  compromisso  internacional  estabelecido pelo Brasil na COP-21, o qual prevê a ampliação da energia elétrica limpa na composição da matriz de 28% para 33% até 2030. Igualmente, a participação dos biocombustíveis deve atingir 18% no mesmo período. Ao contrário de várias nações, o país tem uma posição privilegiada com a possibilidade de expansão do etanol sem desmatamento, sem impacto na produção de ali
mentos e sem desafios estruturais intransponíveis, já que conta com b omba dedicada em praticamente todos os postos revendedores e uma enorme frota de veículos flexíveis aptos ao uso do produto.

Diferente  de  outras opções ambientalmente  eficientes  vislumbradas  para  o  futuro,  o etanol  produzido  no  Brasil  é  uma  alternativa  economicame nte  viável,  tecnicamente dominada  e,  mais  importante,  prontamente  disponível  para  o   combate  ao  aquecimento global de forma imediata.

Tecnologias  automotivas  em  desenvolvimento  ou  em  fase  de  testes  como  os  veículos elétricos  movidos  a  célula  de  combustível  ou  os  carros  híbridos flex-fuel podem fortalecer a vantagem brasileira e reforçar a importân
cia do etanol. Afora  o  ambiente  político  conturbado,  vivenciamos  um  período  importante  para  o desenho de um plano estratégico. Temos, de um lado, a necessidade de reordenação do mercado  de  combustíveis  decorrente  do   novo  posicionamento  da  Petrobrás  e  da perspectiva  de déficit  de  oferta  interna  nos  próximos  anos.  Na  outra  ponta, o Brasil inicia   a   discussão sobre   o   regime   automotivo   com   metas   para   pesquisa   e desenvolvimento em engenharia, eficiência energética e segurança veicular.

Nesse contexto, é louvável a iniciativa do Ministério de Minas e Energia de estabelecer um  sofisticado  plano  de  descarbonização,  unificado  na  iniciativa  conhecida  como Renovabio. É um programa alinhado aos compromissos da COP-21, que busca ampliar a  participação  dos  combustíveis  renováveis  na  matriz  veicular  brasileira,  gerando
ganhos econômicos, sociais e, especialmente, ambientais à sociedade.

Com  efeito,  o  crescimento  do  setor  sucroenergético  para o  atendimento  das  metas estabelecidas internacionalmente   permitiria   uma   redução  adicional   de   emissões estimada  em  mais  de  550  milhões  de  toneladas  de  CO2eq. até  2030,  além  de  redução expressiva  dos gastos com saúde pública decorrentes
domenor uso de combustíveis  fósseis.

Esse  movimento  também  promoveria  a  criação  de  quase  250  mil  no vos  postos  de trabalho  diretos  no  período,  com  potencial  de  atingir  mais  500  mil  empregos  indiretos em toda a cadeia. Os investimentos na ampliação da capacidade produtiva chegariam a US$ 40 bilhões, com efeito multiplicador significativo para s
etores correlatos.

Nessa linha, a proposta do Renovabio traz um arcabouço regulatório transparente e políticas  públicas  na  direção  correta,  além  de  estímulos  para  a  ampliação  da  eficiência econômica  e  ambiental  dos  biocombustíveis  no  pais  na  medida em  que  diferencia os produtos de acordo com o nível de emissões de gases de efeito estufa.

Trata-se  de  uma  iniciativa  que  vai  exigir  um  enorme  esforço dos  agentes  públicos  e privados  e  pode  manter  o  protagonismo  brasileiro  na  corrida mundial  por  fontes alternativas  de  energia  limpa  e  renovável.  Não podemos  perder  tempo  e  desperdiçar mais uma oportunidade de avanço no campo energético!

Artigo elaborado para a Revista Agro Analysis, edição de Maio de 2017.
 

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