![]()
Elizabeth Farina
* Com a colaboração de Luciano Rodrigues, gerente de Economia e Análise Setorial da UNICA.
O pacto histórico assinado por 197 países na 21ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (COP-21) estabeleceu um novo marco no enorme desafio de manter o aumento da temperatura global abaixo de 2ºC e combater os efeitos nefastos do aquecimento global.
A despeito do ceticismo do atual presidente americano ante as evidências empíricas e estudos contundentes sobre o tema, é inegável que o comportamento mundial mudou profundamente e a busca pelo uso consciente de energia limpa e renovável retrata um movimento sem volta.
A necessidade de transformações para a preservação e uso racional dos recursos naturais passou a permear todas as discussões sobre segurança energética. Existe um entendimento coletivo de que não é possível manter o padrão de vida atual sem comprometer o futuro das próximas gerações.
Nessa linha, apesar das políticas erráticas dos últimos 15 a nos, o caso brasileiro ainda é considerado um exemplo de sucesso. Isso porque as fontes renováveis respondem por expressivos 39% da matriz energética nacional. Os
produtos da cana-de-açúcar, por sua vez, se destacam ao representarem cerca de 16% da matriz ou 40% de toda a energia renovável ofertada internamente. Tais cifras são obtidas utilizando apenas 0,6% do território nacional para o cultivo da lavoura canavieira destinada ao uso energético.
Esse destaque da bioenergia é reconhecido no compromisso internacional estabelecido pelo Brasil na COP-21, o qual prevê a ampliação da energia elétrica limpa na composição da matriz de 28% para 33% até 2030. Igualmente, a participação dos biocombustíveis deve atingir 18% no mesmo período. Ao contrário de várias nações, o país tem uma posição privilegiada com a possibilidade de expansão do etanol sem desmatamento, sem impacto na produção de ali
mentos e sem desafios estruturais intransponíveis, já que conta com b omba dedicada em praticamente todos os postos revendedores e uma enorme frota de veículos flexíveis aptos ao uso do produto.
Diferente de outras opções ambientalmente eficientes vislumbradas para o futuro, o etanol produzido no Brasil é uma alternativa economicame nte viável, tecnicamente dominada e, mais importante, prontamente disponível para o combate ao aquecimento global de forma imediata.
Tecnologias automotivas em desenvolvimento ou em fase de testes como os veículos elétricos movidos a célula de combustível ou os carros híbridos flex-fuel podem fortalecer a vantagem brasileira e reforçar a importân
cia do etanol. Afora o ambiente político conturbado, vivenciamos um período importante para o desenho de um plano estratégico. Temos, de um lado, a necessidade de reordenação do mercado de combustíveis decorrente do novo posicionamento da Petrobrás e da perspectiva de déficit de oferta interna nos próximos anos. Na outra ponta, o Brasil inicia a discussão sobre o regime automotivo com metas para pesquisa e desenvolvimento em engenharia, eficiência energética e segurança veicular.
Nesse contexto, é louvável a iniciativa do Ministério de Minas e Energia de estabelecer um sofisticado plano de descarbonização, unificado na iniciativa conhecida como Renovabio. É um programa alinhado aos compromissos da COP-21, que busca ampliar a participação dos combustíveis renováveis na matriz veicular brasileira, gerando
ganhos econômicos, sociais e, especialmente, ambientais à sociedade.
Com efeito, o crescimento do setor sucroenergético para o atendimento das metas estabelecidas internacionalmente permitiria uma redução adicional de emissões estimada em mais de 550 milhões de toneladas de CO2eq. até 2030, além de redução expressiva dos gastos com saúde pública decorrentes
domenor uso de combustíveis fósseis.
Esse movimento também promoveria a criação de quase 250 mil no vos postos de trabalho diretos no período, com potencial de atingir mais 500 mil empregos indiretos em toda a cadeia. Os investimentos na ampliação da capacidade produtiva chegariam a US$ 40 bilhões, com efeito multiplicador significativo para s
etores correlatos.
Nessa linha, a proposta do Renovabio traz um arcabouço regulatório transparente e políticas públicas na direção correta, além de estímulos para a ampliação da eficiência econômica e ambiental dos biocombustíveis no pais na medida em que diferencia os produtos de acordo com o nível de emissões de gases de efeito estufa.
Trata-se de uma iniciativa que vai exigir um enorme esforço dos agentes públicos e privados e pode manter o protagonismo brasileiro na corrida mundial por fontes alternativas de energia limpa e renovável. Não podemos perder tempo e desperdiçar mais uma oportunidade de avanço no campo energético!
Artigo elaborado para a Revista Agro Analysis, edição de Maio de 2017.