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Ricardo Voltolini
Diesel, de novo - Na contramão da história


Há dias em que me ufano  das recentes conquistas do País. E não me refiro às do futebol, mas às socioambientais, como, por exemplo, o controle momentâneo (aguardemos as próximas medições!) do desflorestamento da Amazônia.

Há dias em que a fé na tão propalada vocação para País do futuro sofre abalos sísmicos, em grande medida por causa de decisões equivocadas que nos colocam invariavelmente na contramão da história.

Hoje é um desses dias.

Tiver que ler duas vezes para acreditar em notícia publicada na Folha de São Paulo (Caderno C1- Cotidiano, 11/09/2009). O Ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, afirmou que o governo estuda liberar o uso de diesel para automóveis de passeios, revogando uma lei dos anos 1970, que restringe o uso desse tipo de combustível para caminhões, caminhonetes e veículos comerciais.

Será um tiro no pé. Bem dado.

Exatamente como foi o plano decenal de energia, que abriu as portas para a construção de usinas termoelétricas movidas a carvão, sujando a matriz energética brasileira, considerada uma das mais limpas do planeta.

O diesel, como se sabe, emite mais gás carbônico do que o álcool e, portanto, contribui mais para o aquecimento global.

Sobre ele, vale lembrar ainda –até porque a memória no Brasil costuma ter o tamanho de uma mini-saia—que foi objeto de recente polêmica envolvendo a Petrobras por conter uma quantidade de enxofre muito acima dos níveis europeus – aqui 1.800 partes por milhão, lá 10 partes por milhão.

Também não é demais lembrar que, há cerca de dois anos, o presidente Lula perambulou pela Europa apregoando os benefícios do etanol brasileiro para países comprometidos, com metas definidas no âmbito do Protocolo de Kyoto, a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

No papel de vendedor do produto nacional, destacou suas inegáveis qualidades ambientais.

Esse tipo de incoerência entre o que se diz e o que se faz costuma provocar estragos na credibilidade, principalmente quando tratamos com interlocutores historicamente acostumados a não levar tão a sério o discurso de líderes da América Latina.

Recentemente, o Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente) criou norma que limita em 30% (a partir de 2013) a emissão de poluentes nos automóveis  a diesel.

Qualquer ganho de saúde que advenha dessa justa medida corre o risco de ser jogado no lixo se houver, de fato, com a proposta em estudo do governo, um aumento da frota de carros a diesel nas ruas brasileiras.

Mais carros a diesel circulando nas cidades significa manter ou aumentar os atuais níveis, já muito preocupantes,  de mortes (20 por dia na Grande São Paulo) por causa de poluição.

Vale a pena?

O que ganha com isso a política energética brasileira considerando, por exemplo, que o País não é autossuficiente na produção de diesel e que o preço do seu litro, na bomba do posto, só é mais barato do que álcool e gasolina, porque, hoje, ele conta com incentivos fiscais decorrentes  do seu uso em transporte coletivo? 

Em sua defesa, o governo alega que só tomará a decisão de liberar o uso do diesel para carros comuns quando tiver certeza de que ele está mais limpo de enxofre.

Para o bem do planeta, para estar alinhado com as expectativas das sociedades mais evoluídas do mundo e para pegar a mão certa da história, não seria melhor pular o diesel e ir direto para o capítulo biodiesel?

Artigo publicado anteriormente no site da revista Ideia Sociambiental

 

 
Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor de Ideia Sustentabilidade: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.
 
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