Em meados de 2007, a direção da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA) tomou a decisão seminal de expandir o alcance da entidade, estabelecendo uma presença permanente fora do Brasil. Até então a UNICA limitava sua atuação internacional a encontros privados e apresentações formais em conferências ao redor do mundo.
Hoje, a UNICA mantém escritórios de representação em Washington e Bruxelas e, em breve, estará na Ásia. Se a missão da principal entidade representativa da indústria brasileira da cana-de-açúcar permanece a mesma, no entanto suas estratégias e táticas estão em constante evolução, para acompanhar a dinâmica de mudanças na conjuntura mundial.
Do ponto de vista de seus associados, o que está em jogo nos Estados Unidos? Os EUA continuam a ser o maior mercado automotivo do mundo, representando cerca de um terço das vendas mundiais de veículos, e respondendo por mais de 40% do consumo de gasolina do mundo. No país existem mais de 140 milhões de automóveis e 100 milhões entre caminhões e outros veículos. Só de gasolina os EUA consomem 150 bilhões de galões (565 bilhões de litros) por ano, o que os torna o maior mercado potencial para o etanol, tanto como ingrediente de mistura como substituindo a gasolina.
Com a perspectiva de queda nas vendas de carros novos, algo que já vem sendo observado no mercado americano, a demanda por gasolina vai cair, mas não de forma drástica ou a ponto de comprometer o potencial daquele mercado para os produtores de etanol. Este ano, os americanos devem comprar cerca de 14 milhões de veículos novos, o que, apesar da magnitude do número, representa o mais fraco volume de vendas em 15 anos. No atual verão do Hemisfério Norte, tradiconal período de pico do consumo de combustíveis, as vendas de gasolina estão 3% abaixo do esperado.
Ao reconhecer a forte dependência dos Estados Unidos em relação aos combustíveis fósseis e à necessidade de importar petróleo (70% das necessidades do país provêm de importação) para o setor de transportes, além do peso crescente da gasolina no orçamento dos consumidores, o Congresso dos EUA aprovou em 2007 uma legislação que lança as bases para uma alternativa à gasolina. Talvez nenhuma outra mudança recente, com a provável exceção da introdução dos modelos flex no Brasil, tem o potencial de mudar o mercado para o etanol de cana-de-açúcar de forma tão contundente nos próximos anos.
A nova Lei de Energia estabelece um padrão para os combustíveis renováveis (RFS, na sigla em inglês) e fixa o volume mínino de biocombustíveis que devem ser consumidos anualmente nos Estados Unidos. Para 2008, a norma exige que nove bilhões de galões (34 bilhões de litros) de combustíveis renováveis sejam adicionados aos combustíveis fósseis. Em 2022, o montante sobe para 36 bilhões de galões, ou 136 bilhões de litros de biocombustíveis.
A lei também divide a obrigatoriedade entre os biocombustíveis convencionais e os avançados. Para ser considerado avançado, o biocombustível tem de promover a redução de pelo menos 50% dos gases de efeito estufa, considerando-se a vida total do produto. A maior parte dos biocombustíveis convencionais, como o etanol de milho, é isenta da exigência em relação ao efeito estufa. O etanol de cana-de-açúcar feito no Brasil estaria entre os biocombustíveis avançados pelos padrões da RFS – a classificação do produto brasileiro está em processo de análise pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.
Outra mudança significativa que vem ocorrendo nos Estados Unidos são os fortes aumentos no preço da gasolina e seu efeito sobre as políticas públicas. Quando a gasolina ultrapassou US$ 4 por galão, o sentimento dos consumidores mudou drasticamente. Segundo pesquisas de opinião, o preço da gasolina é hoje a maior preocupação dos consumidores, acima da guerra no Iraque e freqüentemente ligado a aflições em relação à economia. Mais de 75% dos ouvidos dizem que o alto preço da gasolina está lhes causando dificuldades financeiras.
Ao mesmo tempo em que os hábitos de uso e a preferência pelo tipo do carro estão mudando, o foco dos consumidores (leia-se eleitores) americanos está voltado para a redução dos preços nas bombas. Os políticos se esforçam para corresponder, pois os EUA, diferentemente de outros países, não impõe altas taxas sobre a gasolina. A tributação é de cerca de 10%, contra aproximadamente 45% no Brasil.
Como os dois eventos – padrões mínimos para consumo de biocombustíveis e a crise energética – afetam a indústria do etanol no Brasil? O que exatamente está em jogo nos Estados Unidos? Primeiro, os americanos vão continuar a demandar etanol, provavelmente pelo menos até que a oferta atinja 14 bilhões de galões (53 bilhões de litros), montante da chamada “barreira da mistura”.
Com as margens de refino da gasolina muito apertadas (as margens da Valero, maior refinaria dos EUA, caíram 77% em relação ao ano passado), não é estranho que a demanda por etanol esteja crescendo rapidamente. Não apenas pela exigência federal do consumo de biocombustíveis, mas também pelo forte aumento nos preços do petróleo, os distribuidores de gasolina têm um incentivo econômico (mesmo antes do crédito fiscal de US$ 0,51 por galão que recebem por misturar) para adicionar até 10% de etanol, que custa menos, à gasolina (a EPA confirmou no início de agosto que não irá reduzir o padrão de exigência da mistura, embora continuem a vigor as pressões políticas para redução da produção do etanol oriundo de matéria-prima que serve como alimento).
Segundo, a produção de etanol nos EUA pode estar atingindo seu teto. De acordo com as melhores estimativas da indústria, a capacidade total de produção de etanol hoje é de 10 bilhões de galões (38 bilhões de litros). Se todas as usinas que hoje estão em estudo e em construção entrassem em operação a plena capacidade, o total chegaria a 13,5 bilhões de galões (50 bilhões de litros). Entretanto, a alta continuada na cotação do milho tem reduzido de forma tão significativa as margens sobre a produção do etanol derivado do cereal, que muitos observadores se perguntam se a produção efetiva vai de fato atingir o total da capacidade.
Dado que 10% da demanda por gasolina correspondem a cerca de 15 bilhões de galões (57 bilhões de litros) de etanol, seria razoável estimar que haverá uma falta de 1,5 bilhões de galões (5,5 bilhões de litros) de etanol nos EUA, se não forem consideradas as importações. Evidentemente esse cálculo supõe que o consumo de gasolina não caia significativamente e que as usinas de etanol de milho continuem a operar a plena capacidade, sendo que esta premissa é mais provável que a da queda no consumo de gasolina.
Vários estudos sugerem que as margens dos produtores de etanol de milho ficam próximas de zero quando o bushel (25,4 Kg) de milho passa de US$ 5. Como aponta freqüentemente Robert Dineen, o principal lobista da indústria americana de etanol de milho e presidente da principal entidade representativa do setor nos EUA, a Renewable Fuels Association, “não se pode produzir um bushel de milho a US$ 2 com um galão de diesel a US$ 4,5”. Isto é, o preço do milho está diretamente ligado à alta do preço do petróleo, e a matéria- prima cara (leia-se milho) pode estar fixando o preço do etanol em níveis acima dos de mercado.
Para concluir, a decisão da UNICA de se mover para o front internacional, com o estabelecimento de escritórios permanente nas principais capitais, foi a primeira ação do gênero empreendida por uma grande associação de produtores no Brasil e, creio eu, uma atitude que será vista daqui para a frente como um ponto de inflexão crítico para as industrias de cana-de-açúcar e de biocombustíveis. Por enquanto, quanta diferença esse primeiro ano de trabalho fez. Nosso desafio hoje é compreender as mudanças de conjuntura e capitalizar o potencial do agronegócio brasileiro, para expandir o alcance da indústria de biocombustíveis, não apenas pelos interesses do setor, mas também pelos benefícios da redução da dependência mundial dos cada vez mais escassos combustíveis fósseis.
Artigo publicado originalmente na AgroAnalysis, a revista de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em agosto de 2008. |