Convidados

Luiz Fernando do Amaral

Luiz Fernando do Amaral

Chefe do departamento socioambiental do Rabobank e ex-gerente em sustentabilidade da UNICA

A próxima revolução verde 18/06/2014

Já deixou de nos espantar o fato de o Google fazer anúncios de agência de viagens justamente quando estamos planejando nossas férias. Isso ocorre em função de algoritmos que analisam volumes infindáveis de dados para nos entregar soluções e respostas prontas. Porém, além de anúncios não solicitados, há também vantagens significativas nesse processo. A coleta e processamento de quantidades incríveis de informação, definida como Big Data, contribuirá para o desenvolvimento sustentável ao permitir que a sociedade seja cada vez mais eficiente em todos os aspectos da vida cotidiana. A pedra fundamental dessa revolução é a internet móvel. Tal integração somente será possível se nossos celulares, carros, tratores e geladeiras estiverem conectados. Precisaremos de cada vez mais acesso à rede mundial, inclusive no campo.

Por exemplo, algumas cidades nos EUA estão buscando integrar toda a informação de suas infra-estruturas de transporte através da internet, permitindo que um ônibus aguarde pelo trem atrasado ou que os faróis se regulem automaticamente de acordo com o fluxo. Imagine a redução do congestionamento, do consumo de combustível e do tempo perdido.  Na agricultura não será diferente.

Na década de 60 ocorreu na a chamada “revolução verde”. Liderada pelo agrônomo Norman Borlaug, o advento da tecnologia no campo – como o uso de técnicas de manejo ou de novas variedades de sementes – permitiu ganhos imensos de produtividade. Agora, a compilação e análise de trilhões de dados permitirá uma inovação semelhante. A próxima revolução verde no campo será informacional.

Agricultura de precisão já é uma realidade. Muitos tratores possuem GPS, armazenando a localização exata de cada pé de milho ou soja. Na hora da colheita, o maquinário é pilotado quase que automaticamente. Também é possível utilizar fertilizantes e outros insumos de maneira controlada: aplica-se mais onde precisa e menos onde não precisa.

Agora, imagine que além disso o trator se conecte à internet, cheque as previsões do tempo, o preço do milho em Chicago, além de informar a acidez do solo e o nível de infestação de uma determinada praga para uma base de dados global. Com isso, um software poderia sugerir por colher um talhão para aproveitar o bom preço, deixar outra área receber uma última chuva, recomendar mais uma aplicação de calcário no solo e prever o nível de infestação na próxima safra. Tudo isso automaticamente. O mais interessante é que quanto mais gente usando mais inteligente o sistema fica graças a maior abundancia de dados e a criação de novos modelos estatísticos.

Porém, para que isso ocorra, o acesso a redes eficientes de telefonia e internet móvel serão cada vez mais importantes. Se há problemas com sinais das operadoras nos grandes centros, imagine no campo. A falta de uma rede confiável já é um gargalo importante.  Por exemplo, o sistema federal para entrega do Cadastro Ambiental Rural (CAR) é similar ao da Receita Federal para a declaração do imposto de renda, sendo feito de forma virtual. Assim, a falta de internet em cidades do interior poderá impactar negativamente o CAR.

Dessa forma, é provável que um dos melhores investimentos para a sustentabilidade da agricultura será na infra-estrutura de comunicação no campo. Isso não é apenas para a questão ambiental. Um estudo da OCDE, um organismo internacional para o desenvolvimento, indicou que um aumento de 10% na penetração da internet de alta velocidade em um país gera um crescimento econômico adicional da ordem de 1,5%.

A semente para a nova revolução verde será o acesso irrestrito e eficiente ao compartilhamento virtual de informações. Esse objetivo deve fazer parte de uma política pública de longo prazo para a sustentabilidade no campo. A partir daí, a inventividade humana será capaz de aflorar. Aplicativos e algoritmos serão desenvolvido para tornar o uso de recursos para a agricultura cada vez mais eficiente.

A próxima revolução verde não será analógica como as velhas TVs, mas sim digital. Tudo graças a Big Data na era da internet. Passados velhos estereótipos chega a vez dos “nerds” e “geeks”, os ativistas ambientais do futuro.

*Artigo publicado originalmente na Revista Globo Rural de Junho de 2014.

Os artigos assinados não traduzem a opinião da UNICA. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pela entidade e de refletir as diversas tendências do mercado ou do setor.

Voltar

MAIS LIDAS

24/01/2013
Paulo Costa

Cana-de-açúcar – algumas reflexões

16/01/2013
André Meloni Nassar

Ah, se fosse verdade...

18/03/2013
José Goldemberg

Uma oportunidade histórica perdida?

20/12/2012
Paulo Costa

Petrobras – em defesa de Graça Foster

06/02/2013
Ricardo Abramovay

O mito do veneno que salva

Veja Todas
Atômica Studio